(Reprodução: Facebook)
O ex-Secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, publicou na última semana um Artigo que destaca a postura do Estado, no caso o Governo, diante das centenas de manifestações que aconteceram nas cidades brasileiras.
Para ele, o aumento da corrupção
tem suas raízes na completa degradação da atividade política e dos
valores que informam a vida na sociedade.
Clique no link abaixo e confira o Artigo na íntegra.
Por MAYKON OLIVEIRA
A força das recentes manifestações de rua, no Brasil,causou surpresa
geral, aqui e no Exterior.Prevaleceu a máxima do poeta grego Ágaton (447
AC – 401 AC): “é muito provável que o improvável aconteça”.
Ainda é cedo para se aquilatar real dimensão e consequências dessas manifestações. Arrisco-me a fazer alguns comentários.
O desdobramento, em âmbito nacional, do movimento em favor do passe
livre, nos transportes públicos de São Paulo, revelou a existência de um
grande mal-estar na sociedade brasileira, em decorrência de inúmeras
causas, como a volta de inflação, a ineficácia dos serviços públicos e o
aumento significativo da corrupção.
A inflação e a má qualidade dos serviços públicos decorrem de
clamorosos erros na condução da coisa pública. Já o aumento da corrupção
tem suas raízes na completa degradação da atividade política e dos
valores que informam a vida na sociedade.
Impressiona muito o recurso a conhecidas e ineficazes providências
para enfrentar a inflação (desoneração pontual de tributos, manipulação
de tarifas aduaneiras, administração de preços públicos, ameaças
ridículas aos empresários, etc.). Esse filme, como se sabe, tem desfecho
trágico. Inexiste qualquer preocupação com o equilíbrio fiscal, exceto
as engenharias contábeis que desrespeitam a inteligência alheia. O
estímulo ao consumo se faz de forma irresponsável.
A política expansionista de gasto público não produziu nenhuma
melhoria dos serviços públicos. Alguém está satisfeito com a
infraestrutura rodoviária? Ou com os portos e aeroportos? Ou com o
atendimento no SUS? Ou com a educação pública de péssima qualidade? Ou
com os serviços de telefonia e de internet? É evidente que sobra Estado e
falta governo.
Os eventos da Copa do Mundo justificaram o afastamento dos
procedimentos licitatórios, o esbanjamento de dinheiro em um país
carente, a completa submissão do interesse nacional à grosseira
colonialista e mercantilista de uma FIFA, reconhecidamente, pouco
virtuosa.
A intenção original era explorar politicamente esses eventos.
Esqueceram, todavia, dos preços dos ingressos. O povo ficou do lado de
fora das arenas. Assim, os que se jactavam de promover a inclusão social
produziram a mais espetaculosa exclusão.
A atividade política, por sua vez, converteu-se em mero meio de vida,
salvo raras e honrosas exceções. A criação de partidos políticos
constitui, quase sempre, uma forma de apropriação dos recursos públicos
advindos do Fundo Partidário. Da mesma forma, sindicatos, “movimentos
sociais” e organizações estudantis são financiados, de forma direta ou
indireta, com recursos do contribuinte. Estamos criando uma nova
modalidade de patrimonialismo.
A degradação dos valores pode ser sintetizada em uma frase
emblemática: “é um mero caixa dois”. Tudo é justificável, desde que
sirva à perpetuação dos donos do poder ou à satisfação dos interesses
pessoais.
Qual a reação do Estado a esse quadro de mal-estar inespecífico? O
Poder Executivo acenou com um plebiscito sobre a reforma política e
alguns “pactos” sobre algumas políticas públicas. O Legislativo
apressou-se em aprovar algumas medidas com alguma visibilidade, no
intuito de responder ao clamor popular.
A proposta do plebiscito, desconsiderada a presumível manobra
diversionista, vai se disputar, com favoritismo, o torneio de más
ideias.
É óbvio que existem sérios problemas no modelo político brasileiro. A
escolha do sistema eleitoral ou da forma de financiamento das
campanhas, contudo, não é uma tarefa trivial. Jamais poderia ser objeto
de plebiscito.
Antes de fazer uma reforma abrangente, caberia adotar medidas
pontuais, como cláusula de barreira para os partidos, limitação dos
gastos de campanha e eliminação de coligações em eleições proporcionais.
Pactos presumem conflitos. Que conflito existe em relação à saúde,
educação ou transportes públicos? Pactos de quem com quem? Pura
embromação de quem não fez o dever de casa. Enfim, trabalhar é muito
dificultoso, como diria Guimarães Rosa.
Everardo Maciel, ex-Secretário da Receita Federal
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